Hoje um amigo me disse que sempre tem a impressão de que eu escrevo para ele, mas eu não escrevo. Uma outra amiga me disse que sempre lê nas entrelinhas do que eu escrevo o que eu disse para ela, conversando no msn ou por scrap, mas que não está dito aqui, e que quando ela lê o que eu escrevi ela sabe como tudo se encaixa. E eu fiquei meio assustada, falei "nossa, mas fica tudo tão na cara assim?" e ela disse que não, mas que está ali para quem souber procurar. E daí ela me disse que gostou da poesia que eu escrevi e eu comentei que nem me entendo escrevendo poesia.
Eu sempre achei que não gostava de poesia, eu gosto de alguns poetas específicos, Drummond, Pessoa, Ana Cristina César, Manuel Bandeira e só... Sempre preferi prosa. Só que de vez em quando eu sento e escrevo e o que sai poderia ser chamado de poesia. E eu não consigo evitar. Nem escrever e nem me criticar por ter escrito aquilo.
E daí eu lembro daquele primeiro professor do jornalismo, aquele que dizia para a minha turma que se ele poderia ensinar até um bando de macacos a escrever, ele nos ensinaria. O nome dele é Scotto e basicamente ele dava porrada para a gente aprender a apanhar, e entender que o texto não é você, é só seu texto, e, sim, ele pode e será criticado. Ele dizia que quando a gente escreve alguma coisa, o primeiro impulso era se apaixonar por aquilo e daí o senso crítico ficava afetado e não conseguia identificar as falhas, e ele queria distanciamento e humildade com relação ao texto. Na primeira aula a turma tomou tanta mijada que eu eu tive a nítida impressão de que os macacos iam se sair melhor do que a gente. Uma das coisas que ele dizia virou piada entre os amigos: faz frio dentro de mim.
Era isso que ele dizia dos poetas, que eram pessoas que tinham essa sensibilidade exacerbada, uma certa veadagem interior, nem um pouco jornalística. Coisinha ridícula ficar escrevendo coisas meigas e românticas, e o exemplo dele era sempre esse: blablablá blablablá faz frio dentro de mim. E quem escrevia poesia até ficou com vergonha de escrever mais. Não era meu caso, eu concordava com ele, esse negócio de escrever poesia, tenha dó... Seja homem (não no sentido literal, mas no de coragem) e diga com todas as letras, eu achava que poesia só insinuava as coisas.
Bom, daí hoje depois de relembrar esse passado não tão longínqüo com a amiga ela disse: todo artista é autobriográfico. E eu concordei, acho que faz todo sentido, mas na hora não percebi que ela estava falando de mim. E muito tempo depois eu ainda estava relembrando a conversa e tentando entender o que ela tinha me dito e pensando se um dia eu me veria como ela teve a audácia de me ver: como artista.
Por enquanto vou só agradecer a amiga do fundo do coração. Tanto por me ler nas entrelinhas e por fazer meu discurso subentendido ter sentido, como por me fazer elogios nas entrelinhas e me dar razão para refletir.
Ultimamente não se passa um dia na minha vida sem coincidências estranhas, mudanças inesperadas e decisões importantes, e mesmo assim meu coração está em paz.
E eu sei que é porque eu tenho trabalhado na direção em que eu quero ir, escrevendo minhas baboseiras inesperadas, fazendo meus desenhos, cultivando meus amigos e minhas paixões.
E daí me ocorreu que eu fiz esse blog mas que eu não leio blogs e eu resolvi usar aquele botão ali no alto e ver quais eram os próximos blogs. Bom, confesso que fiquei decepcionada. Os blogs dos meus amigos são atualizados de vez em nunca. Eu acabo desistindo de acompanhar porque é chato entrar todo dia e ver que nada mudou (sem ofensas povo). E os blogs de desconhecidos são muito esquisitos... Tem vários que são como álbuns de família virtual, do tipo "veja como o Jimmy cresceu" ou "olha que bonitinho ele dormindo ajoelhado" e não me interessam. Tem uns que são sobre esportes. Não dou a mínima para o Manchester ser campeão. Tem muuuitos em chinês, ou seja, ilegíveis... E tem muuuitos com um post ou dois. A pessoa fez o blog e provavelmente não teve retorno e desistiu. O único que está sempre ali, atualizado e me dizendo coisas importantes é o blog da Regininha, que eu leio mais do que jornal e consulto mais do que o google...
Queria colocar aqui coisas de outros blogs que me dissessem alguma coisa e achei esse poema, que além de ser um poema e dialogar com essa crise do fazer frio dentro de mim, fala que os artistas são canibais, e com certeza são. O poema, na verdade (ou também), é letra de música do U2, mas vou colocar a versão em espanhol porque foi essa que eu achei no blog e foi essa que eu li e gostei. A parte da coincidência é que esse blog foi criado exatamente hoje e esse foi o primeiro post. Eu roubo coisas da Regininha às vezes, mas ela deixa, só que como eu não conheço essa pessoa, vou roubar sem autorização mesmo... Diz o poema que todo poeta é um ladrão e que segredo é o que se conta a outra pessoa. Achei essa sacada genial. Mas sim, faz frio dentro de quem escreveu isso... E é bonito mesmo assim. Aposto que um macaco não escrevia. Talvez um macaco dos mais espertinhos, já dizia o Scotto... E eu chamando o Bono de macaco!
Como una mosca en la pared
No es ningún secreto que las estrellas están cayendo del cielo
No es ningún secreto que nuestro mundo está en oscuridad esta noche
Dicen que el sol es eclipsado a veces por la luna
Tu sabes que no te veo cuando camina en el cuarto.
No es ningún secreto que un amigo es alguien que le deja que le ayudes
No es ningún secreto que un mentiroso no creerá a nadie más
Ellos dicen que un secreto es algo que le dices a otra persona
Así que te lo estoy diciendo, nena.
Amor, brillamos como una estrella que se quema
Caemos desde el cielo esta noche
Un hombre pedirá amor
Un hombre se arrastrará
En el lado aspero del amor
como una mosca en la pared
No es un secreto en realidad
No es ningún secreto que una conciencia puede ser una molestia
No es ningún secreto que la ambición muerde las uñas en el éxito
Todo artista es un caníbal, todo poeta es un ladrón,
Todos matan su inspiración y cantan sobre sus penas
Amor, brillamos como una estrella que se quema
Caemos desde el cielo esta noche
Un hombre pedirá amor
Un hombre se arrastrará
En el lado aspero del amor
como una mosca en la pared
No es un secreto en realidad
No es un secreto que las estrellas están cayendo del cielo
El universo explota porque un hombre mintió
Oye tengo que irme, ya no tengo cambio.
Hay un montón de cosas que si pudiera las cambiaría.
Quinta-feira, 22 de Maio de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
5 comentários:
Não dá pra não canibalizar, né? Já dizia Bakhtin que nossa voz é composta de muitas vozes, das que nos rodeiam, das que nos falam...Conheço mil histórias do Scotto, mas não essa do faz frio dentro de mim... Muito, muito boa!
Mas tenho que reconhecer: dentro de mim faz frio o tempo todo, hehehe...
bj,
tou te roubando, hoje, posto amanhã.Quero que mais gente leia,inclusive porque eu vivia dizendo pr'aquele povo que ameaçava criar blog, que só o fizesse quando tivesse o que dizer. Tu tens, eu tenho...E tem que ter a disciplina de se pautar, de se dedicar...
Hoje é dia da crônica, não dá pra colocar mais nada...
beijão.
Dentro de ti até neva Regininha! hahaha
Fico lisonjeada de vc achar que eu tenho o que dizer. Sempre fico quando alguém vê valor no que eu escrevi, porque sinceramente, eu nunca vejo.
Agora, fiquei tensa que você vai me roubar! A primeira coisa que pensei foi "ai minhas vírgulas! ai minhas crases!" hahhaha enfim, repito o que eu disse... devia ter passado menos tempo tentando desenhar tuas perninhas penduradas quando vc sentava na mesa e mais tempo te ouvindo.
Adorei a crônica de hoje. Falando em Guimarães Rosa não tinha como não ficar lindo...
Bjão
Rô, eu também amei o teu post. Fico ate com vontade de voltar a ter blog, mas espero um nome novo, pq o meu antigo era ridiculo.
Amei mesmo seu post... nao sei como posso ter ficado tanto tempo sem lembrar do "faz frio dentro de mim". Por mim, todos aqueles chatos que criticam o scotto sem conhecer deviam ler isso...
saudades, muitas. Tudo de bom pra vc aí na França.
Galeno
Oi Galeno! Brigada! Ah o nome é o de menos né, o importante é escrever. E escrever sempre...
O Scotto não tinha como ser unanidade né... Mas já diz o ditado, se você é criticado, está fazendo alguma coisa certa.
Lembro muito das coisas que ele dizia. E olha que tem professores que nos deram muito mais aulas, muito mais recentes e eu não lembro nada deles.
Como vão as coisas no curso? Me bateu uma nostalgia... hahah
Bjão
belíssimo.
Postar um comentário